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O caçador e seu dia de az
(Autor: Onofre Ferreira do Prado)
        
         Na região de Buritis, em Minas Gerais, na era de 1958 a estação das chuvas principiou mais cedo, prometendo para o ano seguinte uma colheita farta e grandes mudanças na economia do lugar. Havia agricultor tão animado que cuidou logo de aumentar a área que já vinha plantando. Havia também quem acreditou e iniciou o seu primeiro roçado. Com o seu Jeremias da Silva e seus seis filhos não foi diferente. Diferente mesmo foi com o seu vizinho e compadre Adivo da Maricota, que vivia falando mal do governo que não ajudava e da natureza injusta com o trabalhador da roça, preferindo viver mais na moleza, pescando, caçando e de vez em quando subtraíndo às escondidas. No entusiasmo geral, a família Silva resolveu dobrar a cultura de milho e de arroz, deixando o feijão para ser plantado no final das águas, como era de costume. Os sinais que a natureza dava e as chuvas bem distribuídas significavam mais esperança e motivação para o trabalhador do campo; esse herói sofrido, batalhador, pouco reconhecido. No mês de fevereiro o milho e o arroz estavam uma maravilha. A roça capinada na época certa, zelada no capricho, as espigas robustas, bem granadas, a lavoura salva. Pelos cálculos da família Silva, daria até para aumentar as vaquinhas de leite, com a venda do excedente da produção. As coisas pareciam bem, até que de uma hora para outra perceberam que tudo quanto era bicho começou a estragar o milharal e o arrozal, causando prejuízo e aborrecimento. Eram capivaras, macacos, pacas, quatis; cada qual mais voraz e faminto, sem falar na passarinhada, uma praga difícil de ser controlada. Mas o seu Jeremias que não era bobo, lançou a idéia de construírem três fojos em pontos estratégicos no interior da roça. A rigor, as tampas dos fojos foram camufladas com capim e ramos, pois assim, poderiam capturar pelo menos alguns do animais de maior porte, como capivaras e pacas, que têm a carne muito apreciada pelo sertanejo. Na primeira manhã, ao conferir as armadilhas, o seu Jeremias levou de cara um grande susto! Distraído, imaginado que pudesse encontrar uma capivara sevada ou uma paca, foi surpreendido com o seu compadre Adivo com um saco de milho verde do lado. Logo o seu compadre que não plantou roça, ou sequer era chegado ao cabo da sem graça. Assustado perguntou, compadre Adivo como foi que o senhor conseguiu cair aqui? Desculpe o acontecido compadre Jeremias, quando as coisas têm que acontecer com um de nós, parece que a gente não consegue mesmo evitar. Ontem fui terminando de jantar, logo foi turvando; chamei os cachorros, peguei essas espigas de milho e ia levando para sevar umas pacas na beira do córrego, pouco abaixo daqui. Quando eu ia passando ali na frente, os cachorros levantaram uma caça, era bicho grande; correram nessa direção e ficaram latindo sem parar. Esperei um tempo, assobiei, gritei e nada. Foi aí que vim olhar o que eles estavam acuando. Dentro da roça, já muito escuro, acabei caindo neste grande buraco. Machuquei um pouco, porém, o pior foi o susto que levei, sem dizer na vergonha sem tamanho que estou sentindo do senhor; não me esquecendo também do trabalho que ainda vou lhe dar para me tirar dessa agonia. O seu Jeremias mais calmo e fazendo-se de desentendido, prontamente foi dizendo: não é vergonha não, compadre Adivo, aguarde mais um pouco aí, eu só vou rapidinho chamar meus filhos e trazer uma corda para fazermos o seu resgate. Agora estou pensando muito é no medo que o senhor deve ter passado nesse tempo todo, e na preocupação de seus filhos e da comadre Maricota, sem saberem que o senhor teve hoje o seu dia de azar, caindo nesse buraco.
        


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